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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Português

Era assim, acho que morava em Ribas do Rio Pardo, uma cidade minúscula que marcou a minha infância. Eu tinha toda a liberdade do mundo nesse lugar, subia em àrvores, corria atrás do trem, tomava banho no rio. Essa semana resolvi voltar a estudar português, estava de saco cheio de ler doutrina jurídica.
E foi errando um exercício de gramática, que usando a borracha, aquele cheiro me remeteu ao fogão da minha professora particular de Ribas. Ela fazia pé-de-moleque e me ajudava com as tarefas.
Passava as tardes lá...ia mesmo pra comer as guloseimas, mas aprender assim era mais divertido.
Agora que mudaram as regras da ortografia, não muitas, me vejo sentindo aquele cheiro novamente. Lembro-me da primeira vez que me deparei com as novas regras, onde idéia virava ideia, me recusei, nunca iria seguir tal deformidade.
E o tal do hífen? Ficou tudo tão esquisito, olha só, não se usa mais: antirrevolucionário, extrarregulamentar, autoinstrução, autoanálise, intrassociedade, telesserviço, supersecreto...
E também descobri certas curiosidades, sempre, a minha vida inteira falei: Vou raspar minhas axilas, acreditam que está errado? O certo seria "Vou rapa minhas axilas"....e eu também sempre preguei o selo na carta, e não é pregar, na real é pegar selo em envelope. Gente, só dando risada mesmo com essa tal de língua portuguesa!
E risólis? Não, nem pensar, se escreve rissole, alguém sabia dessa?
O trem quando saí dos trilhos não se desencarrilha, ele "desencarrila".
É tanta coisa que a gente pensa que sabe. Eu, uma pseudojornalista, me gabava por saber tudo de português, ahãm, sei!
Falta-me ainda comer muito Manoel de Barros, Guimarães Rosa, João Cabral de Mello Neto!
Vou voltar pra gramática, preciso logo passar num concurso!
Depois, quando eu estiver bem velhinha me dou ao luxo de ser "apenas" escritora....

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

30

Acordei com dor de cabeça, a mesma de ontem, só que agora do lado direito.
Tive um sonho esquisito, ainda tinha 20 anos.
Penso no meu entusiasmo de completar 30 anos.
Até parece que à partir de agora tenho que mostrar pro mundo que sou alguém.
Visito o melhor presente que estão fazendo pra mim (uma casa) e tenho vontade de ganhar dinheiro, pra encher a minha morada de cores, de plantas, e ter um cachorro pro Antônio brincar. Aí reflito que na verdade me aconteceram muitas coisas boas, sim, fiz duas faculdades, alguns dizem que tenho cara de jornalista, outros que realmente escrevo bem, e eu ainda acredito que o curso de direito me trouxe outra perspectiva para mudar o mundo, posso ser útil para as questões indígenas, para alcançar a igualdade de gênero, para fazer o pai que renúncia o seu filho pagar pensão.
Só que aí vem a realidade me sacudir: VOCÊ não passou no Exame da OAB, VOCÊ não passou em nenhum concurso público, VOCÊ nem sabe onde colocar a crase....
Podia ter entrado numa depressão danada se fosse pelo rumo da minha realidade.
Mas prefiro outras veredas....vou fazer 30 anos, brindando com os meus amigos, recomeçando a estudar, ainda vou passar na OAB, e também num concurso que não precisa ganhar tão bem, que me dê possibilidades de parcelar as cores da minha casa, e quando já estiver sendo dona do meu nariz, tenho certeza que mudarei o mundo, pois "eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge".
Arranco mais uma pelinha da minha boca, gosto do sabor do sangue, eu sou assim, meio poeta, tenho que sofrer bastante pra depois aprender a ser feliz.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Dia dos namorados

Era uma vez uma leonina muito brava que se olhou no espelho.
Descobriu que para o mundo ela não tinha estilo, não tinha graça.
Para os olhos dos outros era bastante apagada.
Resolveu cortar sua juba.
Não queria mais ser ela mesma.
Queria uma fada madrinha.
Queria agradar o namorado.
Mas do que adiantaria?
Se depois de alguns meses ela perderia o seu brilho?
Nunca foi a Londres mesmo...
A leonina resolveu não fazer mais nada.
Ia só esperar.
Tantas vezes tentou se embelezar...em vão!
Era bonita apenas pra sua cria,
que a olhava como a leonina mais bonita de todas
de moletom e casaco de vovó.

domingo, 8 de maio de 2011

Irma

Estranho esse domingo de dia das mães sem ela por perto.
Silêncio na casa, sem o arrastar do seu chinelinho.
Tudo calmo, sem Dnª Irma pra lá e pra cá.
Saudade até dos seus sermões matinais,
do cheiro da comida que só agora ela aprendeu a fazer,
depois de ter se tornado vovó.
É estranho ser mãe sem o ser completamente.
Ainda sou filha, e tenho às vezes a impressão
de que por não ser essa mãe clássica,
me sinto menos mãe.
Ganhei uma gravata e uma camisa,
vou me armar para enfrentar o mundo.
E quem sabe um dia,
serei uma avó que cozinha maravilhosamente,
como está sendo minha mãe.
Grandiosa essa baixinha,
que percebe o que se passa comigo,
e eu não preciso nem falar,
ela vê em meus olhos.
Me disse uma vez que eu sou ela melhorada,
por causa dos olhos verdes que herdei da Dnª Iracema.
Um dia mãe, quem sabe....

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Casa comigo?

Minha mãe tem quase 60 anos e ainda gosta de cultivar a idéia de que existe por aí um homem que se esconde através de sua insensibilidade, porém, não vê a hora de se revelar. Pelo menos ela fica acordada até às 23:00 horas (como eu) assistindo filmes românticos, é da onde tiro o meu pressentimento.
Eu, com quase 30, me identifico com as películas "água com açucar", entendo bem, porque nós, mulheres, gostamos tanto desse gênero. Ainda somos capazes de imaginar que o galã vai pular da ficção para as nossas vidas, que a tal história narrada nos filmes virá a acontecer conosco.
Lá no fundo sabemos que não...mas o que nos imepede de sonhar?
Porque o conto de fadas não pode se tornar real?
Duas correntes. A primeira se envereda pelo caminho idealizador, esse homem que você tanto deseja, e que continua te rejeitando, vai se entregar quando tiver com 40 anos, depois de olhar ao redor e se deparar com o próprio umbigo.
A segunda corrente, a chamada pessimista, dispõe que o que ocorre na ficção não se vislumbra na realidade, portanto, esse verdadeiro amor é apenas platônico, o sujeito vai continuar solteiro, pegador de lolitas, enquanto você se acaba na academia...só que ele preferirá uma ninfeta justamente porque ela o obedece.
Qual a posição marjoritária?
Defendo uma terceira, primeiro bata a cabeça mil vezes pra aprender algo de construtivo, depois tenha um filho, logo em seguida pode vir acontecer esse príncipe ou não...Você será feliz de qualquer jeito!

sábado, 12 de março de 2011

palito de picolé

Hoje tirei a sorte grande!
Fui comprar um picolé e tirei o palito premiado.
Voltei a ser criança.
Até parecia que tinha ganhado na mega sena.
Achei que era o presente ideal pro Antônio, pois em pleno sábado de manhã não podia ficar com ele.
Ele gostou mesmo, guardou o palito tão escondido que não conseguiu achar mais.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Antônio

Lembro-me como se fosse ontem...eu tomando café, a bolsa rompida, eu achando que estava fazendo xixi nas calças tranquila (pensava que era uma última fase da gravidez- fazer xixi nas calças!).
Era ele querendo conhecer o mundo há cinco anos atrás.
Me fez mudar tanto, me fez ver felicidade onde eu nem sabia que existia.
Me faz amar loucamente, me fez fazer as pequenas coisas com calmaria.
E também trouxe ansiedade, medo, vontade de chorar.
Tá grande, quase na altura dos meus peitos.
Questiona tudo, até quando foi soprar a velinha e eu disse:
-Faz um desejo que ele se realiza!
Ele:
- Quando?
Eu sem resposta...milhares de perguntas que não faço idéia do que posso falar e assim vou aprendendo que ser mãe não é pra qualquer uma não!
Orgulho meu esses olhinhos azuis!
Que diz que o meu omelete é o melhor do mundo.
Que me abraça e enxuga minhas lágrimas quando choro.
Que me ensina a brincar.
Príncipe...o que seria da minha vida sem você?