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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Carta de Repúdio

CONTRA A PEC 215


DEMARCAÇÃO DAS TERRAS

URGÊNCIA NOS JULGAMENTOS

Exmo. Sr. Presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Carlos Ayres Brito e Exmos(as) Srs(as) ministros(as).

Excelentíssima Presidenta da República Federativa do Brasil, Sra. Dilma Vana Rousseff.

Exmo. Sr. Presidente do Senado, da Câmara Federal e Exmos(as) senadores(as) e deputados(as) federais.



Nós, membros do Coletivo “Terra Vermelha”, entidade nascida após a disseminação nas redes sociais da Carta da comunidade de PyelitoKue / Mbarakay, que ficou conhecida por denunciar a situação dos Guarani-Kaiowá em Mato Grosso do Sul, nosso Estado, bem como ficou demonstrada a intenção de resistência desse povo indígena visando permanecer em suas terras até a morte, viemos explanar através desta Carta de repúdio nossa indignação pelo o que vem acontecendo com os povos indígenas, onde se verifica uma situação de miséria e esquecimento pelos três Poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário.

Há que se fazer um relato de toda uma conjuntura histórica, há que se refrescar a memória de Vossas Excelências, autoridades máximas nesse país.

Existe hoje espalhado no Brasil cerca de 70 mil índios guarani, 45 mil em sua maioria do subgrupo Guarani-Kaiowá, a maior parte deles se encontra no Mato Grosso do Sul, o seu extermínio começou durante a Guerra do Paraguai, os poucos que sobreviveram foram obrigados a viver em terras com tamanhos reduzidos, pois entre 1915 e 1928 o Serviço de Proteção ao Índio demarcou 8 pequenas áreas indígenas.

Pois bem, durante o decorrer do século XX, Mato Grosso do Sul foi reconhecido como o estado do agronegócio, da monocultura, primeiramente plantações de milho, depois a soja, o gado, e atualmente a febre da cana-de- açúcar, das usinas sulcroalcooleira, é sabido que o Governo estadual através da sua política de incentivos fiscais estimula tal crescimento, com descontos de até 90% do ICMS para esses empreendedores.

E os índios? Servem pra quê? “Índio não produz, vive”, palavras de Eduardo Viveiros de Castro, assim, seguindo a lógica do nosso sistema capitalista, índio não tem muita serventia, ou melhor, até tem, serve de mão-de-obra barata.

Só que o nosso Poder Constituinte Originário quando promulgou a Constituição Federal de 1988 deixou uma brecha para que esses índios futuramente cobrassem seus direitos, vide arst. 231 e 67 da ADCT.

O Brasil ainda se comprometeu com a questão indígena no momento em que foi signatário de Pactos Internacionais de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, do Protocolo de San Salvador e do Convênio 169 da Organização Internacional do Trabalho.

Em 2007 um TAC foi assinado entre a FUNAI e o MPF para a delimitação e a demarcação das terras Guarani-Kaiowá, só que ainda não saiu das fases iniciais, citamos, por exemplo, a publicação dos laudos antropológicos, que teve o seu prazo final expirado no ano de 2009, e mais, os pareceres e provas de reconhecimento de terras indígenas deveriam ter sido concluídos em 2010.

Há 80 processos tramitando na Justiça federal a fim de impedir a demarcação dessas terras, processos estes que quando chegam ao STF não são julgados com celeridade, podemos citar o caso da Reserva Indígena Raposa Serra do Sol, que começou a sua jornada em 1977.

Os dados dessa guerra pela terra são alarmantes: apenas 30 a 40% dos proprietários de terra em Mato Grosso do Sul possuem títulos legais (fonte: geógrafo Ariovaldo Umbelino de Oliveira da USP); cerca de 35 mil Guarani-Kaiowá vivem em 11 reservas com quase 33 mil hectares e outros dez mil sobrevivem em acampamentos na beira de estradas ou outros locais em litígio judicial ( Fonte: Antropólogo Tonico Benites da UFRJ); o gado dispõe de 3 a 5 hectares de terra por cabeça, enquanto que os Guarani-Kaiowá não chegam a ocupar um hectare de terra por índio (Fonte: Indigenista EgonHeck) .

E a guerra declina para uma nova problemática: o suicídio. Segundo a jornalista Eliana Brum da revista Época, a cada seis dias um jovem Guarani-Kaiowá se suicida, desde 1980 cerca de 1500 tiraram a sua própria vida.

Essa guerra velada insiste em nos apontar outra questão, as aldeias cujo tamanho foi reduzido desde o início do século XX, hoje são confinamentos de índios, o seu destino não é mais o seu TEKOHA, as aldeias se tornaram favelas urbanas, com drogas lícitas e ilícitas, miséria, violência, tudo isso é o retrato contemporâneo dos povos indígenas.

Este é o novo panorama da questão indígena devido o descaso dos Poderes da União, tendo em vista o negligenciamento do Poder Público, a omissão de quem deveria governar tendo como base o interesse público.

O Poder Executivo ao invés de cumprir os preceitos da Constituição Cidadã prefere fechar os olhos. O prazo para a demarcação de terras após a promulgação da Constituição era de cinco anos, ou seja, desde 1993 estamos esperando o Executivo desempenhar a sua função.

Decorridos 24 anos da promulgação da nossa Carta Magna, apenas 361 terras tiveram o seu processo concluído, estão na fila 339 terras que ainda nem tiveram o seu processo iniciado.

O Governo Lula, tão almejado pelas classes sociais, enfim um fiel representante do povo conquistará o poder, tampouco fez para que esses dados mudassem, homologou apenas 88 terras indígenas, sendo que 3 dos territórios Guarani, dois deles tiveram a ocupação suspensa por liminar ao STF: ÑanderuMarangatu, em 2006 e Arroio Korá em 2009.

E por falar em STF, mais uma vez temos que ressaltar que quando esses processos chegam a Suprema Corte, estranhamente a duração razoável do processo se torna um princípio sem aplicação.

Já que nos adentramos na questão do Judiciário há números interessantes a serem revelados: a taxa de assassinato dos Guarani-Kaiowá é quatro vezes maior que a média nacional, 100 assassinatos por 100 mil habitantes, ademais cerca de 90% dos homicídios não são solucionados.

Podemos ainda citar casos recentes de crimes ocorridos aqui no Mato Grosso do Sul, que ainda não houve nenhum tipo de solução, sequer o encerramento do Inquérito Policial, como é o caso do brutal assassinato do Cacique (Nhanderú) Nísio Gomes ocorrido na terra indígena Guay´viry, município de Aral Moreira, em novembro de 2011; do estupro sofrido em outubro de 2012, pela indígena Guarani - Kaiowá da aldeia PyelitoKue/Mbarakay cometido por oito homens; do assassinato de dois professores indígenas Guarani- Kaiowá, Rolindo Vera e Jenivaldo Vera, da terra indígena Ypo’í, do assassinato da rezadeira (Nhandesí) Xurite Lopes, da terra indígena KurussúAmbá, do atentado ao ônibus de estudantes Terenas, queimado por Coquetel Molotov em junho de 2011, na cidade de Miranda.

Ademais, no início desse ano foi apresentada na Câmara dos Deputados a PEC 215, que absurdamente foi considerada constitucional pela CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), a mesma só não foi votada por falta de quórum.

Essa PEC foi duramente criticada não só pelos órgãos que defendem os povos indígenas e os quilombolas, mas também foi depreciado por vários outros setores da sociedade, pois veementemente desrespeita o texto constitucional, já que segundo os art. 20, XI e art. 22, XIV, as terras ocupadas pelos índios são bens da União, bem como compete privativamente a União legislar sobre as populações indígenas, e ainda dispõe principalmente o art. 231 que compete a União demarcar essas terras indígenas.

Desse modo, a PEC tenta passar por cima do sistema de “freios e contrapesos”, pois o que propõe é uma invasão de competência, isto é, pretende que o Legislativo tome as rédeas nas demarcações, senão vejamos:

“Art. 49 – É da competência exclusiva do Congresso Nacional:



(novo inciso) – aprovar a demarcação das terras tradicionalmente ocupadas pelos índios e ratificar as demarcações já homologadas”;



“Art. 231. São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.

(inciso alterado) “§ 4º As terras de que trata este artigo, após a respectiva demarcação aprovada ou ratificada pelo Congresso Nacional, são inalienáveis e indisponíveis, e os direitos sobre elas, imprescritíveis”;

(novo inciso) § 8º Os critérios e procedimentos de demarcação das Áreas indígenas deverão ser regulamentados por lei”.



No entanto, o trâmite da demarcação é ato administrativo, meramente declaratório e não constitutivo de direito, não há razão de ser que um direito já existente deve agora passar por autorização legislativa posterior.

Portanto, tal PEC fere o art. 60, § 4ª, inciso III, cláusula pétrea, devendo ser efetivamente arquivada.

Outra questão relevante que, aliás, prontamente foi suspensa,é a Portaria 303 da AGU. Esta foi editada a pretexto de regulamentar “as salvaguardas institucionais às terras indígenas conforme o entendimento fixado pelo STF na Petição 3.338 RR”.

A portaria visa estender os ditames veiculados no julgamento do caso “Raposa Serra do Sol” a todas as demais terras indígenas, contrariando o próprio STF, que já esclareceu que a decisão daquele caso não possui efeito vinculante, ainda mais que ainda está pendente de julgamento embargos de declaração propostos pela Procuradoria-Geral da República.

O Advogado Geral da União quando dispõe que "o usufruto dos índios não se sobrepõe ao interesse da política de defesa nacional; a instalação de bases, unidades e postos militares e demais intervenções militares, a expansão estratégica da malha viária, a exploração de alternativas energéticas de cunho estratégico e o resguardo das riquezas de cunho estratégico, a critério dos órgãos competentes (Ministério da Defesa e Conselho de Defesa Nacional), serão implementados independentemente de consulta às comunidades indígenas envolvidas ou à FUNAI", fere o direito de consulta e consentimento prévio, livre e informado, garantido pela Convenção 169 da OIT.

Não podemos esquecer que o atual Governador do estado de Mato Grosso do Sul, André Puccinelli, em março de 2012 assinou um acordo de cooperação técnica entre a União e o Estado, visando a execução do plano de policiamento comunitário nas aldeias, o projeto, entretanto, sequer começou a ser implantado, pois, segundo o governo do Estado, seriam necessários quase R$ 3 milhões - de verbas exclusivamente federais - para sua execução.

Porém, o MPF/MS , identificou paralelamente a este Plano de policiamento, um convênio entre a União e o Estado de Mato Grosso do sul, no montante de 20 milhões de reais, os recursos seriam utilizados nas regiões de fronteira e o repasse foi definido segundo os índices de violência.

Desse modo, seguindo os ditames do convênio, o MPF/MS ajuizou ação de bloqueio de verbas (Autos nº 0001049-10.2011.1.03.6002), alegando que é justamente nessa área de fronteira com o Paraguai que vivem mais de 44 mil índios Guarani-Kaiowá que sofrem com os altos índices de violência.

“O Estado, sabendo de suas reais necessidades em proteger a população indígena, condiciona a prestação de serviços de segurança pública a esses povos ao repasse de quase R$ 3 milhões pela União quando, por outro lado, e argumentando beneficiar diretamente toda a população fronteiriça, recebe quase R$ 21 milhões em repasses de verbas federais para alcançar os mesmos objetivos”, destaca o MPF.



Por fim, nós do Coletivo “Terra Vermelha”, reivindicamos:

- A demarcação dos ‘Tekohas’ reivindicados pelos povos indígenas do estado de MS, conforme determina o Artigo 231 da Constituição Federal e 67 do ADCT (Ato das Disposições Constitucionais Transitórias) cujo prazo de 5 anos previsto na Constituição se esgotou em 1993, portanto exigimos a máxima urgência;

- A imediata publicação dos Relatórios Antropológicos previstos no TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) assinado em novembro de 2007 entre Governo Federal, Ministério Público Federal e Lideranças Indígenas para a demarcação de 36 terras tradicionalmente ocupadas pelo povo Guarani Kaiowá;

- Que o prazo estabelecido pelo por determinação da Presidenta Dilma Rousseff, para que a Funai conclua em 30 dias (a partir da data de 30 de outubro de 2012), a aprovação dos estudos antropológicos que comprovam que as terras reivindicadas pelas comunidades Guarani Kaiowá pertencem de fato aos seus ancestrais, não seja ultrapassado;

- Que sejam revogadas as liminares que paralisaram os procedimentos demarcatórios de terras tradicionais indígenas, bem como a suspensão de liminares que determinam o despejo de comunidades de suas terras recentemente ocupadas;

- A revogação da Portaria 303 da AGU (Advocacia Geral da União);

- O arquivamento definitivo da PEC 215 que tramita no Congresso Nacional;

- Que medidas sejam adotadas para coibir os atos de violência sistematicamente cometidos contra as populações indígenas de MS, bem como de todo o Brasil;

- Que o Estado Brasileiro, de forma efetiva, garanta às comunidades, segurança alimentar, saúde, acesso à educação e ao território, vilipendiados pelos Latifundiários e pelo Agronegócio;

- O julgamento de ações relativas aos direitos dos povos indígenas com celeridade e eficiência na conclusão dos processos na Justiça Federal brasileira, assim como, no Supremo Tribunal Federal ainda sem decisões finais;

- O julgamento dos os mandantes e executores do assassinato brutal do Cacique (Nhanderú) Nísio Gomes ocorrido na terra indígena Guay´viry, município de Aral Moreira, em novembro de 2011;

- O julgamento dos os mandantes e executores do estupro sofrido em outubro de 2012, pela indígena Guarani Kaiowá da aldeia PyelitoKue/Mbarakay cometido por oito homens;

- O julgamento dos os mandantes e executores do assassinato de dois professores indígenas Guarani Kaiowá, Rolindo Vera e Jenivaldo Vera, da terra indígena Ypo’í;

- O julgamento dos os mandantes e executores do assassinato da rezadeira (Nhandesí) Xurite Lopes, da terra indígena KurussúAmbá;

- O julgamento dos os mandantes e executores do atentado ao ônibus de estudantes Terenas, queimado por Coquetel Molotov em junho de 2011, na cidade de Miranda;

- Os julgamentos de tantos outros casos de assassinato, estupro, tortura, escravidão, subemprego, tráfico de crianças e mulheres, tráfico de drogas, arrendamento de terras indígenas, menos divulgados midiaticamente, porém que são parte da história do drama sofrido pelos indígenas no Mato Grosso do Sul;

- O repasse da quantia de 3 milhões de reais concedida pela União, de acordo com o convênio realizado pela mesma com o Estado de Mato Grosso do sul, a fim de que seja implantado o plano de policiamento comunitário nas aldeias, haja vista os altos índices de homicídios e suicídios na região do Cone Sul.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Oeste



Foi assim, essa semana estava curada e poderia começar a minha jornada "Doutrina X Eu ", meu ciclo de estudos de 16 horas já estava arrumadinho no Excel, era só partir pra luta.

Mas me vi submersa em uma questão tão mais relevante que o meu possível futuro, sei que minha mãe tem toda razão :
- Priscila, pode fazer passeata, protesto, mas não se esqueça que a sua guerra é você contra você mesma !
Segunda reunião do coletivo "Terra Vermelha", no caminho uma galera chegando de bicicleta com um mapinha na mão, procurando o local, o pessoal meio IFCH/Unicamp...me senti em casa.
Formamos uma roda com cadeiras e colchões e ficamos discutindo a logística da nossa manifestação por quase 3 horas.
Conheci pessoas que pensam como eu, e se não fosse essa tal de rede social seria quase impossível encontrá-las, pois a maioria dessas são estudantes, outros artistas, alguns da àrea de comunicação.....enfim, cidadãos indignados com a situação que se encontram os indíos no Brasil, mais precisamente aqui do lado do nosso habitat, vergonha nacional !
Ontem fui ver a palestra de um antropólogo e também de um advogado que está no "front" há um bom tempo.
Saí de lá com um peso no coração.
Não....não queria tomar umas, minha vontade foi de gritar aos quatro cantos: Puta que pariu, acordem!
Esse Oeste, terra de ninguém, terra sem lei, terra de latufundiários que só pensam no lucro, terra de gente mesquinha metida a elite, terra de gente preconceituosa, terra de homofóbicos cantadores de sertanejo, terra que não me pertence, terra de hípócritas.
Agora tenho certeza que o meu sangue indígena é legítimo.
Minhas pretensões, minha ligação com a natureza, minha certeza de que esse mundo de merda está grávido de um novo mundo ( sábio pensamento de Galeano), minha esperança, minha prece....sim, lá na antiga Mate-Laranjeira, da onde vem meus ancestrais, a minha cor, a minha força, sim, minha avó era índia, sim, vou lutar para que seja feita justiça, a real, para que a Constituição seja cumprida, sim, vou espernear, vocês terão que me ouvir!
E o dia 09 de novembro de 2012 vai ficar fincado na memória.
Minha carta de repúdio a PEC 215 e a Portaria 303 da AGU pode até não fazer tanto efeito, não causar pressões, ser enterrada numa gaveta qualquer do meio burocrático.

Só que vou escrevê-la como se fosse a última, me empanharei para demonstrar porque esse governo repugnante está errado, porque a justiça não avança, porque uma menina índia é estuprada por 8 homens e ninguém toca no assunto, porque as autoridades só são autoridades quando interessa.

“Não queremos emancipação, nem integração. Queremos o nosso direito de viver. Jamais o branco compreenderá o índio. Queremos ser um povo livre como antigamente. O índio está cercado, amordaçado por uma democracia que não funciona. Por isso nós vamos a campo”. Marçal de Souza, assassinado em 25/11/83.



quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Luta

O barulho dos pássaros me fez transportar para a beira do rio salobra onde a vida é mansa.
Fez o meu pai voltar a sua infância em Porto Felicidade, perto da Vila Juti, local hoje incerto e não sabido.
-É uma calmaria essa vida de passarinhar.
Léo que o diga !!  Fitá-los e saber tudo sobre o cantar de cada um....é poesia dividida em várias vertentes, é como aquela boneca russa matrioska, um canto vai se encaixando no outro.

Estamos acostumados com o zig- zag dos carros, com o tic- tac dos relógios, celulares tocando a música que pega na cabeça, com tudo na maior velocidade, que quando se percebe que a vida vem de uma breve correnteza de rio, de pássaros fazendo seus ninhos, de arauanquãs discutindo, e tudo num mesmo tom, não tem como não fechar os olhos e invadir a alma com bons pensamentos.

Mas ao mesmo tempo essa natureza perdida me faz remeter a problemática dos índios daqui do Mato Grosso do Sul.
Meu pai ouvindo suas canções em guarani me lembra que tenho sangue índigena e não se pode fechar os olhos.

Ele fala que a mãe dele era uma índia e o seu pai paraguaio.
Nunca os vi.
Ás vezes acho que é invenção, meu pai é um contador de histórias, um dos melhores que já conheci.
Só que me sinto paraguaia, índia, portuguesa e sergipana.

E sei que não tenho uma história de luta relacionada com a causa indígena, porém, o que vem acontecendo ultimamente é inadmissível pra qualquer um, não se pode fingir que está tudo bem, que essa questão não me pertence.

O que fazer então??

Como tirar a venda dos olhos dos outros cidadãos?

Pior, como fazer a justiça brasileira cumprir o seu papel?

Os Guarani-Kaiowá e Kadiwéus estão condenados a não terem sequer um pedaço de terra para ser enterrados com seus antepassados, podem ser eliminados da história brasileira pelo simples fato da máquina burocrática pender para o lado dos grandes latifundiários.

E assim se restar algum indivíduo "silvícola" vai servir de mão de obra para a mais nova satisfação financeira do Estado: usinas de álcool.

Que grande futuro....
Tenho medo ! Antônio perguntou uma vez pra mim porque ele era tão branco, e se ficasse no sol ficaria da minha cor, disse que queria ter nascido índio.

Ele é...todos nós somos !!Basta abrir os olhos !!

sábado, 20 de outubro de 2012

Provos

    Agora que não estou conseguindo andar direito ( tenho certeza que na segunda, único dia que podem me atender, vou sair do consultório e ir direto pro hospital), estou dormindo tarde e acordando tarde, tive uma ideia ontem depois que todas as luzes da casa estavam apagadas.
Já que somos fãs dos beatniks, escrevemos também, escutamos jazz e rock´n´roll, ganhamos pouco, estamos numa fase que baladas de madrugada às vezes tornam o resto da semana indestrutível,
 porque não nos juntarmos em alguns cantos da cidade, cada um com a sua poesia, um ou outro leva um vinho e vamos aproveitar o final do dia ??? 

Fiz essa experiência em dois lugares: Orla Morena e ali na TVE no Pq. dos Poderes ( aquele buraco....sei lá o nome daquilo).

A cidade tem uns lugares tão escondidos que ninguém  explora, aqui perto de casa posso enumerar pelo menos uns três.

E dessa forma poderíamos estar conhecendo Campo Grande e ao mesmo tempo nos deliciando ouvindo Drummond, Pessoa, Ginsberg, Hilda Hilst, Manoel de Barros, Vinícius de Moraes, Lemisnky e o que vier.

Lembro uma vez que deixei num banco de uma praça em Campinas "A revolução dos bichos" de George Orwell, com um bilhete, que aquele livro deveria ser repassado e não ficar encostado numa prateleira.  Não sei se o meu plano deu certo.....acho que resolvi fazer isso depois que li "Provos" de Matteo Guarnaccia, da coleção Baderna.


Quando fui pra Holanda tirei uma foto ao lado de um bicicleta amarrada numa ponte. Tinha que estar conectada com a contracultura daquela terra. Pra mim ficou tão claro porque as coisas funcionam lá, daquela forma, meio anárquico mesmo.

Vamos então meus amigos fazer o seguinte: primeiro a gente escolhe o lugar, pintamos nossas bicicletas de branco, cada um leva o seu livro ou a sua própria poesia, quem tiver uma grana sobrando leva uma garrafa de vinho, assim o resto da semana irá fluir com mais intensidade !!

Há uma contracultura em mim
que precisa ser desamarrada
prestes a explodir
intensificada
e não adianta achar que isso é coisa do passado
pois 1968 é o meu futuro
sonho delirante
de uma menina
da geração coca-cola
Ouço Velvet e Stones
E sonho
Woddy Allen em Meia-noite em Paris
sabe do que estou dizendo
Por que não? é o meu mais novo lema
Marcho com Caetano
"Só a verdade é revolucionária"

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Pedido de casamento


Demorei uma hora pra sair da cama.

Medo de ser rejeitada mais uma vez.

As crianças cantarolavam ontem “A Priscila tem medo dela
mesma”.

É verdade (as crianças serenamente jogam a verdade na nossa
cara).

Decidi: tenho R$ 150,00, não sei o que dá pra comprar com isso, se
 duas alianças que não são joias de verdade, ou um par de brincos,
 ou colares....sei lá, nunca fui mesmo muito convencional.

Mas vou pedir ele em casamento.

Depois de quase um mês sozinha, sofrendo como nunca sofri,
 chorando, me lamentando, tudo bem, também saí, enchi a cara,
 fiz merda, não nego...não sou hipócrita, em alguns momentos fui
feliz, quando voltava pra casa sozinha escutando Doors no rádio,
ou quando pulava ao som de Dimitri Pellz, eu sei, ou até mesmo
num dos primeiros dias que estava solteira e fui tomar um açaí,
comprei um jornal francês (versão em português lógico) e fiquei lá
 lendo....me curtindo, achando o máximo a minha independência
emocional.

 

Mas era tudo mentira. Eu não estava feliz. Eu era feliz naqueles
momentos, e no outro dia estava um trapo outra vez.

Vim pra chácara pra pensar na vida ( só isso que faço
ultimamente).

E quatro dias sem ter companhia, sem ter alguém ao lado pra
assistir filme comigo, ou pra discutir sobre o livro que estou lendo,
 ou mesmo pra brindar uma cerveja, foi demais pra mim.

E não é qualquer pessoa que me faz falta, é ele!

Eu sei, eu sei....minha terapeuta já me alertou: Você e nem ele
estão preparados para esse tipo de relacionamento (morar juntos,
 casar...etc).

Só que eu sou teimosa, sempre serei, e vou tentar.

E sou de 1968, e acompanho Caetano em “Alegria, Alegria”.

Também compartilho da ideia de uma ex- amigo, ex- amor, que
 sempre me dizia: Foda-se o goleiro!

Eu vou lá mais uma vez, me ajoelhar, propor ser apenas dele, ouvir
 suas chatices pro resto da minha vida, acordar todos os dias ao
seu lado, discutir quem vai lavar a louça, fazer uma caderneta pra
ver o quanto a gente pode gastar ou não....

Quero ouvir da boca dele: Pri, eu quero tentar uma vida com você,
 eu quero me dividir na sua vida, eu quero ser o seu homem, eu
acredito em você!

Eu não tenho dinheiro, mas isso é uma questão momentânea.

Se não confiar nisso, no meu taco, viro um caranguejo.

Tudo pode acontecer em apenas um dia.

Posso levar um pé na bunda, e ficar até o final do ano de mal
comigo mesma.

Tomar tarja preta, emagrecer mais e mais, chegar ao fim do poço
( ele acha que só as drogas poderiam fazer isso comigo, não, o
amor é a pior delas).

Ou pode ser tudo ao contrário. E nessa semana volto a querer
viver.

Eu vou tentar.

Mais uma vez.

domingo, 14 de outubro de 2012

The science of sleep

João-de-barro fez casa numa árvore seca.

E é porque já encontrou seu grande amor.

Eu também, mas não foi já, demorou.

E pelas vias tortas do destino estou só.

E me questiono se nasci pra ser assim.

Coloquei "Exile on main street" pra tentar me animar.

Abri uma cerveja e quando terminei de tomá-la estava embriagada.

Não teve jeito: liguei para o grande amor.

Chorei, ouvi coisas que não deveria, me autosabotei.

Vontade  de estar nos seus braços.

de sentir o cheiro, de beijar-lhe o pescoço.

de ser sua agora eternamente.

Grito merda em francês na minha cabeça.

Eu não sou a mulher esperada.

Eu sou apenas eu.

De turbante na cabeça.

E grandes óculos para disfarçar minha tristeza.

"Eu acho que eles ficaram juntos no fim, porque ele ganhou confiança e descobriu que ela realmente gostava dele".

"The science of sleep".








sábado, 13 de outubro de 2012

Solidão que nada.....

Pavões miam às 5:30 da manhã aqui na chácara.

 Vento que dá vontade de abrir vinho de manhã.

 "Ulisses" me espera na cama.

 Filmes de monte pra ver.

 Sossego
...
em meu desassossego.

 Adoro as mentiras do Antônio.

 Vontade de que esses dias sejam eternos!