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terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Maria da Penha: uma reflexão sobre as relações sociais


Mais do que o grito das mulheres mortas, mutiladas e sufocadas pela violência, o exemplo da farmacêutica Maria da Penha, nordestina, cujo nome inspirou a Lei, deixa mensagem de reflexão sobre as relações sociais.
Em entrevista ao Midiamax, no restaurante do Novotel, em Campo Grande, Maria conta sua história de vida. Entre momentos de dor e alegria, ela deixa claro que já está na hora de crianças, profissionais, casais e amigos repensarem a forma de relação construída uns com os outros. Em que momento da emoção, o preconceito invade e torna pessoas tão próximas em adversárias, inimigos, vítimas e agressores?
Não há muros para o preconceito. Mulheres ricas, que tiveram a chance de sentar num banco de universidade e outras, semi-analfabetas, que mal sabem assinar o nome enfrentam a dor da violência psicológica e física.
Do outro lado, homens ricos, inteligentes, de boa posição, terno e gravata se vêem invadidos por raiva e revolta assim como aqueles mais humildes que chegam a casa e despejam todas sua amargura e dor na mulher, como se ela fosse um ser inferior.
Para Maria da Penha, o momento agora é de reflexão, de muita informação e de atitude, principalmente da rede de proteção que envolve os formadores de opinião, a polícia e todo o Judiciário. Leia a entrevista:
Midiamax – Como a senhora analisa essa violência que atinge as mulheres e que nada tem a ver com a condição social? Um exemplo foi o seu caso, uma pessoa que estudou, bioquímica e que foi vítima de um professor universitário.
Maria da Penha – Muitas vezes essa mulher não tem o apoio da família. Outras repensam: se eu me separar o padrão de vida dos meus filhos vai cair. Eles estão acostumados a viajar, ter academia. Elas gostam do padrão de vida.
(Pausa para conversar com a ex-coordenadora estadual de Políticas Públicas para a Mulher, Maria Rosana sobre a importância de uma capacitação aos policiais que atuam em delegacias)
Midiamax – Por que é importante capacitar esses profissionais?
Maria da Penha – É essencial. As mulheres precisam sentir-se acolhidas. Se na porta da delegacia ela não for bem acolhida, ela não acredita que pode ser ajudada.
Midiamax – Recentemente o Midiamax publicou o drama de uma jovem que apanhava do namorado e que teve que levar para delegacia a história dela para conseguir se livrar do relacionamento. Recebemos muitos e-mails de policiais dizendo que na contramão muitas mulheres vítimas de violência acabam por retirar as queixas e isso os deixa indignados.
Maria da Penha – Só quem entende o porquê que uma mulher retira a queixa é quem entende da violência. Depois da violência vem a fase da lua-de-mel, a reconciliação. A mulher acredita que não vai acontecer de novo.
Midiamax – Qual o obstáculo enfrentado depois que o caso vai parar na polícia?
Maria da Penha – No momento que o agressor já for punido, a mulher tende a querer se livrar daquele traste. E os juízes, imbuídos da cultura machista, tentam a reconciliação do casal. Na frente do juiz a mulher acaba por aceitar e se arrisca mais uma vez.
Midimax – A senhora acredita nos grupos de apoio e no tratamento para o agressor?
Maria da Penha – Vai servir para tratar o agressor para um novo relacionamento, mas não acredito em recuperação para aquela relação já com problema. Eu acho que o agressor repete o que aprendeu na infância se teve uma relação violenta quando criança. Mas, a Maria Rosana é que sabe dizer isso melhor para você. (aponta)
Midiamax – Como foi a sua vida? A senhora sofreu alguma violência quando criança? E como foram os anos de namoro com seu ex-marido que depois se tornou seu agressor?
Maria da Penha – A minha vivência é muito pessoal. Tive uma vida normal e na minha família não existiam brigas nem violência. Meu relacionamento com meu ex-marido foi maravilhoso. Ele era bem quisto, muito polido.
Midiamax – Quando ele começou a mudar?
Maria da Penha – Depois que ele conseguiu a naturalização (Ele era colombiano). Foi logo após o nascimento da nossa segunda filha. Tivemos três meninas. Eu fui usada porque para uma pessoa mudar do jeito que ele mudou só pode ser isso. Não sei como uma pessoa tão cativante muda de uma hora para outra.
Midiamax – Quais eram as atitudes dele? Isso afetou como sua vida sexual?
Maria da Penha – Passou a me culpar por tudo. Se a criança riscava assim (mostra com o dedo como se fosse um risco mínimo) a parede ele já me falava. Eu tinha que evitar que isso acontecesse. Vivia sob tensão porque não podia estimulá-lo. Não tinha como largar. Tentei me separar. Não conseguia ter mais relação sexual. Sofri agressão pesada depois do nascimento da nossa segunda filha e sempre eu tentava levar em consideração os momentos bons.
Midiamax – Com o tempo tudo isso foi acabando...
Maria da Penha – Eu não suportava mais a presença dele. Já conhecia o comportamento dele. Prevenia, procurava deixar tudo em ordem em casa. Minhas filhas eram pequenas, mas sempre sentiam proteção em mim. Hoje, as pessoas me falam: você conseguiu vencer porque suas filhas não foram prejudicadas.
Midiamax – Mesmo após o atentado que te deixou assim (cadeirante) as crianças tiveram contato com o pai?
Maria da Penha – Foi ele quem me tirou do hospital. Fiquei quatro meses internada e ainda fomos morar na mesma casa. Quando consegui me separar ele ia tentar visitar as meninas, mas eu e elas combinávamos de dar uma desculpa para ele dizíamos que tinha algum aniversário para irmos. Mas, eu dizia para elas se elas quisessem sair com o pai não tinha problema. Elas diziam que não. Meu medo maior era a gente se separar e ele fugir com minhas filhas para me prejudicar. Na minha família não existe violência.
Midiamax – Por que ele não aceitava a separação?
Maria da Penha – Embora o relacionamento não fosse bom para ele era. O meu salário era todo para dentro de casa. Eu sempre trabalhei e só ele não daria conta. Ele tinha outro relacionamento em outro estado porque ele viajava quinzenalmente para dar aula.
Midiamax – A senhora dividia sua dor com alguém? Como que houve de fato a separação?
Maria da Penha – Sim, dividia com amigas. Quando a bomba estourou e ele foi indiciado ele voltou para Natal, onde ele tinha um relacionamento. Não sei quanto tempo ele continuou. Durante o processo foi colocado que ele já tinha criado problema com outra família que ele tinha formado. Com certeza não fui a primeira nem a última.
Midiamax – A sua história deu nome à lei. Deve doer muito ter que falar disso tudo...
Maria da Penha – No Brasil não teve outra tão grave. Não gosto de falar. Talvez não falasse se não tivesse na posição que estou. A mulher não é a responsável pela violência doméstica. Mas pela cultura e lá no íntimo das pessoas há que ela fez alguma coisa para merecer isso e não é verdade.
Midimax – Quando foi o atentado e o que mais a senhora passou após isso?
Maria da Penha – Foi em 1983 e a primeira delegacia foi em 1985. A novela que passa hoje mostra uma mulher vítima de violência que reage e bate no marido. Isso é mentira jamais a mulher agredida tem coragem para agir assim. Quando eu me separei dele eu já estava paraplégica. Fiquei quatro meses hospitalizada e fui levada para casa por ele. Ele me tirou do hospital sem avisar minha família me mantendo em cárcere privado por 15 dias. Ele queria me matar. Um dia percebi o chuveiro dando choque e me apoiei no boxe e gritei pela empregada que já estava em alerta. Ai eu me lembrei que ele não tomava banho naquele banheiro e sim, no das crianças. Eu ia morrer eletrocutada.
Midiamax – Mas como ele atirou contra a senhora e não foi preso? E ainda, tirou-lhe do hospital e tentou lhe matar de novo?
Maria da Penha – Porque a versão dele à polícia é de que havia sido assaltado. Após atirar contra mim enquanto eu dormia, ele foi encontrado de pijama rasgado na cozinha com uma corda no pescoço.
Midiamax – Mas como a polícia depois descobriu a verdade?
Maria da Penha – Os vizinhos e as empregadas me ajudaram. Ele se contradisse sobre o pseudo-assalto e mudou a versão. Seis meses depois a polícia foi até a casa com a desculpa de arquivar o processo e ele foi pego de surpresa. Ai caiu em contradição porque já tinha esquecido a versão inicial.
Midiamax – Como era viver dentro da mesma casa com um homem que tentou te matar?
Maria da Penha – Ele me ignorava, era como se eu não existisse. Eu ainda estava aguardando a separação de corpos. A minha família não se aproximava de mim. A lavadeira de casa foi a casa da minha mãe e contou a ela o que estava acontecendo e minha família providenciou a separação. Mas toda a arrumação para sair de casa estava pronta sem ele saber. No cantinho do guarda-roupa estavam as roupas das crianças. Quando ele disse: segunda eu vou viajar, eu já me preparei. Ele deixou um vigia lá, mas foi ele sair e nós fomos embora com a ajuda da minha família. Depois de cinco meses após sair do hospital me livrei dele.
Maria da Penha agradeceu à entrevista e foi atender outra repórter. O deputado estadual Paulo Duarte (PT) a acompanhou e horas depois a levou para o seminário na Assembléia Legislativa, onde ela pôde falar da Lei de número 11.340 no auditório lotado, no dia 27 de novembro de 2008. Mulheres, homens, autoridades, funcionários da Casa de Leis reverenciaram Maria da Penha.

O Brasil demorou 20 anos para punir ao agressor de Maria da Penha, seu ex-marido , o colombiano naturalizado brasileiro Marco Antonio Heredia Viveros. Condenado a dois anos de prisão, cumpriu dois e foi posto em liberdade.

Ele foi preso apenas 19 anos e seis meses depois, em 2002. Em julho deste ano, passados 25 anos, o Estado brasileiro finalmente cumpre com a quase totalidade das recomendações da OEA (Organização dos Estados Americanos). Foi feito o pagamento da indenização de R$ 60 mil, pelo governo do Ceará que, na época, não puniu judicialmente o agressor. Com o dinheiro, ela quitou o financiamento de sua casa.
“Maria da Penha é um ícone da luta pela igualdade, foi privada do andar mas não da mobilidade e anda por todo o Brasil mostrando a triste verdade!”. (Trecho da homenagem de Odila Schwingel Lange/Dourados)

terça-feira, 4 de novembro de 2008


Desliguei o telefone. Ele estava na rua. Estava caminhando pela rua da Prefeitura, indo pegar um ônibus, iria lecionar música. Iria pegar a vanzinha azul, que eu tanto peguei, que caminharia pelas ruas campineiras. Eu, estava deitada de bruço na cama. Desliguei o telefone frustrada. Fui até a cozinha subi na cadeira para pegar uma caixa do armário. Tinha visto cigarrilhas numa caixinha de metal. Aqui em casa todo mundo fuma escondido: minha mãe, meu pai e eu. Procurei e não havia mais.Fiquei pensando em como as nossas vidas tomaram rumos diferentes. E isso deve acontecer com todo mundo. Eu como bolachas enquanto meu filho está na escolinha. Por mais que as responsabilidades tenham se exaltado em mim, continuo sendo cria dos meus pais. Meus cabelos brancos e a falta de cabelos do meu amigo nos mostra a evolução do tempo.Nossas histórias secretas, nossas risadas, nossa intimidade de poder falar tudo que passa na mente, nossas paixões gêmeas, nossa sensação de estarmos nos anos 60, eu era a Heloísa e ele o Galeno. E a minha vida me vem aos olhos da sua maneira energética, bem explorada, experimentada em todas as suas feições. Como soube aproveitar, e como era bom ter amigos. E que falta que eles me fazem sempre. O Antônio me preenche de uma maneira especial, é tudo diferente agora. Mas me falta os desabafos, os cigarros compartilhados, os comentários dos nossos filmes, a vontade de mudar o mundo, me dá saudade das minhas épocas de rádio muda, de pegar o ônibus e visualizar a cidade em cada entranha, dançar um blues, dar risada sem saber do quê, comer no restaurante vegetariano, olhar o mundo pela janela do meu apartamento, ir a pé no Cine Paradiso, comer moqueca na Tonha, beber no bar do zé, tomar cuba no delta blues, visitar o Platô, fazer rango às quatro da matina na casa do Cris, o sorriso da Di, as tardes no CDMC, a feira hippie, fazer chá doces sonhos, ir aos "concertos" de música eletroacústica, comprar maça na barraquinha da orozimbo maia, ir a catedral, nas reuniões do DACOM, ao bosque, as caronas, de tudo um pouco vou visualizando. São apenas as memórias que colorem a minha vida, dou meia risada. Dá pra ver?

terça-feira, 21 de outubro de 2008

meus cabelos estão crescendo. sinto os cachos além dos olhos. faço o meu filho dormir contando histórias irreais. vejo o que se passa na televisão já acostumada com todo os fatos. é por isso que fui fugindo do jornalismo. sinto tédio pós- processo civil. recursos sem poesia. quero Drummond. domingo saí com o antônio, levei-o pra fazer bolinhas de sabão na praça. depois fomos comer bata frita e tomar suco de laranja. foi um dos meus melhores domingos do ano. não li o jornal. me fez bem, mas fui assitir ensaio sobre a cegueira, o que me fez mal. pontadas no estômago. quero e não quero Saramago. sábado corri descalça, no asfalto molhado, umas três quadras. corri atrás de um amor machucado. ele foi mais rápido por causa do tênis. não consegui alcançá-lo. tenho saudade. mas não me dói mais. junto meu dinherinho pra matar a saudade que não me mata mais. mas o juntar o dinherinho pode me matar aos poucos. mas a gente vai morrendo um pouco a cada dia, né??. cheiro a mão. espero.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Barba, cabelo e bigode?

Saindo do Salão Internacional pela rua 13 de maio, à frente se encontra a morada de Roque de Marco, construção que permanece ali desde 1887, ao lado o antigo Hotel Grigolete, cenário de uma Campinas antiga, perdida no transtorno da região central. A nostalgia chega de encontro à entrevista com o velho Luiz Teixeira, que mantém o seu salão desde 1968 na antiga Estação ferroviária, hoje, sede da Secretaria de Cultura da Prefeitura, mais conhecido como Estação Cultura. Dimensões do passado, toda arquitetura, de casarões dos barões de café, enraizados e abandonados; logo adiante o futuro, luzes, multidão de gente, barulho, conversas, vendedores gritando o seu peixe, “Churrasquinho grego a R$ 1,10”, mendigos na rua, barraquinhas, panfletos, carros, trânsito... policiais a cavalo no meio daquele caos, 1968, ano das possíveis revoluções, ano em que “seo”Luís, que não é só barbeiro, estava mudando o local do seu salão, sem saber que ia permanecer a vida toda ali.
“Eu comecei a aprender essa profissão porque sempre fui um homem que tem muito de mulherada. Então nos meus 15 anos eu era um garotão mimado pelo meu pai, descia para cidade, ia para a 13 de Maio paquerar. Eu não gostava de trabalhar, de fazer muito exercício pesado, um dia falei assim: ‘Vou aprender a cortar cabelo’. Fui a escola na Barão de Jaguara, no Senac lá, era 1955/1956. Aí eu cheguei fui lá na escola e me matriculei. A aula era das duas às quatro, seis meses de curso, prático e teórico, porque eu sou um profissional que tem diploma. Aprendia a mexer com cabelo de mulher e de homem. Fiz o curso tirei o diploma, e como na época na escola estavam precisando de professores, comecei a dar aula, só pra dizer que não fazia nada. Quando chegou uma certa idade, depois dos 20 anos, pensei: ‘O que vou fazer da minha vida?’, como quem diz eu só sei cortar cabelo e fazer barba, aí fui e montei meu salão. Isso em 1962, ali em frente a agência de ônibus (apontando, como se ainda existisse), e tinha aquela mulherada”.
Sete anos depois o “seo” Luiz se instalou na Estação, “aqui era um Restaurante da Fepasa, não tinha salão, fui o primeiro e o único até agora. E essa porta aqui não tinha (apontando a porta que dá de cara com a 13 de maio), a entrada era por ali, essa porta era um vitrô, eu modifiquei a Estação”. No ambiente do salão ainda se respira o tempo em que o destino dos trens era ali; a cadeira de barbeiro é das antigas, percebe-se o quanto já foi gasta, quantas histórias já foram contadas naquele divã, duas pias azul-bebê, uma perto da entrada, e outra ao lado da máquina redonda que esteriliza a navalha, o removedor de cutícula, e esquenta as toalhas. Na parede um mural com fotos antigas de estrelas com ou sem barba, um quadro que o “seo” Luiz gosta de mostrar, um recorte de jornal com uma entrevista dele falando da região central. Logo acima um calendário com uma mulher bem dotada fisicamente, ou se preferir, gostosa, dando para perceber o quanto o barbeiro gosta da mulherada.
O personagem foi contando a sua trajetória, que não tinha essa separação de salão de mulher e salão de homem como existe hoje, como diz ele, “era tudo unissex”. Chamá-lo apenas de barbeiro não seria apropriado, todo serviço do salão ele faz sozinho, corta cabelo, barbeia, limpeza de pele, permanente , tintura :“é só pagar!”.
“Na época, no começo do salão, contratei uma equipe para trabalhar, manicure, dois cabeleireiros, e eu fui trabalhando e crescendo, aí eu casei, sou casado até hoje, tenho dois filhos formados, graças à profissão”. E as veredas da vida foram passando, os filhos se casando, o menino se tornou empresário, a menina especialista em doença mental, e o “seo” Luiz resistindo, o centro se expandindo, a Estação desativada, como cantava Chico “Roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda peão, o tempo rodou num instante (...)”. Ele tentava explicar: “Eu acho que essas mudanças precisam acontecer, broto. Tudo na vida muda, a Estação é o seguinte, aqui não podia continuar, o negócio cresce. A mudança é normal na vida de todos nós”.
A cidade que na sua infância era rodeada de fazendas, sítios, com o bonde passando, indo para Sousas, as carroças, os carroceiros que faziam entrega, aquela Campinas apenas vista nas fotos P/B, na descrição de “seo” Luiz “tudo mato”. O trem, meio de transporte luxuoso que trazia tantos clientes para o barbeiro, “pessoas entrando, pessoas indo passear pelo centro, então o dinheiro rodava. Vem um que viajava, vem outro que vem daqui, dali, tem dinheiro, faz uma barba, corta uma unha...isso daí é importante, quem tem um tanto, gasta”. E a cidade se alongando, desenvolvendo, mais gente, Universidades, e em 1987 desativam a Estação, só sobram “seo” Luiz e o rapaz do bar para cuidar daquele patrimônio, recordando o acontecimento entristeceu a face, “isso daqui ficou um cemitério”.
Oferecendo um cafezinho, a entrevista é interrompida por um vereador que pede para o gentil barbeiro se pode deixar o seu celular carregando ali. “Seo” Luiz se recorda do tempo em que o Quércia, político influente de Campinas, se barbeava no seu salão, o ex-prefeito assassinado Toninho e até Magalhães Teixeira. “Aqui têm vários políticos que vêm aqui, eu sou amigo do Quércia, já fez barba aqui muitas vezes. O Toninho era meu amigo, o outro Prefeito, o Magalhães Teixeira. Política é tudo aquele rolo, que nem agora tá o Lula, promete aquelas coisas, mas não faz nada, não dá pra fazer porque é uma cúpula. É uma máquina muito grande, muita gente tem influência. Então para ele fazer tem que conseguir comprar 70% da turma”. Sábio barbeiro, sem ao menos ter saído na mídia o polêmico “mensalão”, “seo” Luiz já pressentia os andares da política brasileira, o que ele deve estar percebendo agora é que a compra de políticos só serve mesmo para a estagnação do país.
Arriscando a prosa para o outro lado, surge a questão do homem contemporâneo, este que cuida do físico, faz as unhas, pinta o cabelo. “Seo” Luiz acha que antigamente estes homens que se cuidavam também eram tachados de veado, hoje o preconceito acabou, ou nas palavras do barbeiro “acabou esse confete”. Chega-se então na questão feminina, “seo” Luiz concorda que as mulheres estão mais responsáveis, que também cuidam do corpo, e que devem faze-lo, agora mulher trabalhando... para ele, não. “Quando casei minha esposa trabalhava, falei pra ela um mês antes do casamento que ela teria que parar de trabalhar, a única função dela seria cuidar de mim e da casa. Disse para ela: Você vai ter o que quiser.” E o feminismo, “seo” Luiz?????. Ele reconhece sim que os tempos mudaram, até sua filha hoje trabalha, mas ele acha uma estupidez, “Aí a mulher não tem tempo, chega cansada e inventa uma desculpa para o marido, o marido quer sair e ela...é o tal negócio é por isso que casamento não dura mais. É natural, mulher que trabalha não tem tempo para se dedicar ao marido. Ela tem que se dedicar exclusivamente à família, ao lar”. Simone de Beauvoir deve estar se revirando no caixão depois desta declaração, o barbeiro confessa, o casamento é um dos temas mais abordados no salão e para o “seo” Luiz a culpa é quase sempre da mulher, e ainda tem mais: “A mulher não pode namorar um cara com um nível inferior do que o dela, pra começar o nível social, e depois o salário. A mulher tem que ganhar mais ou menos igual ao homem, se o cara namorar uma mulher que ganha mais que ele, tá ferrado”.
Ás vezes o barbeiro se transforma num personagem rodriguiano, “a mulher com chinelo de dedo para mim chegou no fim do poço”. Continuando o bate-papo, voltando aos inflamados anos 60, o entrevistado responde que o regime militar era melhor do que hoje.
“A turma respeitava não fazia essa baderna que acontece hoje, cercar rua, estrada, fazer greve, não deixar a pessoa trabalhar, eu sou contra esse negócio. Sou a favor dos militares, eu gostava porque existia respeito, hoje você passa por aí o cara chega pra um soldado aí e jogam uma bomba, matam o policial, e antes não acontecia isso. Quando os policiais pegavam esses ladrões naquela época, sumiam com eles”. E os estudantes, “seo” Luiz??, a democracia tão sonhada???.... “O estudante não sabia o que queria, sempre tinha um cabeça no meio que punha na cabeça deles para eles fazerem aquelas coisas. Isso aqui não é democracia, é bandidagem!”
Figura intrigante, “seo” Luiz com seu 1,80m de altura, nariz alongado, sorriso alargado, pele branca, calvo, rigidez e ternura. As variações da região central da cidade fazem parte da memória do barbeiro, tudo em volta traduz a sua vivência. Ele ainda sonha com as pessoas desembarcando dos trens, com a beleza da estação, o apito, os fregueses, o romantismo daquilo tudo... que já se foi.

“Na hora da arte do cabelo, o pessoal do ‘internacional’ é mais importante para mim que o Presidente da República” Dr. Hélio Lobo/1969, declaração tirada do livro de memórias do “seu” Luiz , recordações dos fregueses escondidas no livrinho azul.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Ele está melhor, nesses momentos de mãe a gente percebe que se tornar essa criadora não é somente levá-lo ao parque de diversões. É lógico não são apenas os momentos agradáveis que nos unem, principalmente quando é você que o segura no colo tentando acalmá-lo na fila do hospital..na verdade esse é o ponto , é ali que se percebe o olhar de uma mãe. Tenho esse amor manso de um menino, que veio do meu ventre, o primeiro, amor eterno. Não sei se é pelo fato de se tratar de um amor materno, mas nunca tive nada igual. E sou insaciável, e gosto de todos os cheiros, e tenho vontade de dormir agarradinha. E adoro quando ele termina uma frase dizendo:
- né, mamãe??
Tenho minhas carências e minhas ilusões de escritora, meus calos são tratados no início mas continuam a doer. E sei que vai ser sempre assim. Não tenho nada a temer.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Síndrome de Bridget Jones

Quero ser menos insegura; ter mais fé em mim. Me amar, me achar linda , maravilhosa, introcável. Estou me sentindo traída sem mesmo saber o que está acontecendo. Ele não me liga, nem me manda resposta dos recados que lhe enviei. Será q conheceu uma loira de 1,80 de altura, olhos azuis e peituda e já me esqueceu??? Pq acho q sou tão facilmente desprezível?? Será o meu inferno astral?? Pq não aparece mil coisas pra eu fazer aqui no escritório e assim me esqueço do meu suposto chifre?? Cadê o livro do Proust q ainda não comprei?? Cadê o Cris com um café na mão ouvindo as minhas histórias?? E se realmente ele não me amar mais...se chegar a conclusão que o bom mesmo é estar só o q faço da vida? Pq sou tão dependente e continuo nas minhas crises juvenis?? Sou a Bridget Jones ??



Porque te amo
Deverias ao menos te deter
Um instante

Como as pessoas fazem
Quando vêem a petúnia
Ou a chuva de granizo.

Porque te amo
Deveria a teus olhos parecer
Uma outra Ariana

Não essa que te louva

A cada verso
Mas outra

Reverso de sua própria placidez
Escudo e crueldade a cada gesto.

Porque te amo, Dionísio,
é que me faço assim tão simultânea
Madura, adolescente

E porisso talvez
Te aborreças de mim.
(...)


Hilda Hilst

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Contagem regressiva. Parto depois de amanhã, chegarei ao ao paraíso no final da tarde de sexta. Terei que atravessar a estrada, parar no orelhão no início da Vila Salobra. Abraçarei o meu amor com todas as estrelas do céu. Acordarei com as curicacas, com sóco-bois...e avistarei as garças brancas, os tuiuiús, me jogarei nas águas, limpando a alma, como estou precisando dessa imensidão, onde já os meus olhos não podem enxergar. E do colo que já não é mais tão presente por causa da correria da vida. Me vou preparada para o encontro infinito com o sagrado Pantanal.