Total de visualizações de página

quinta-feira, 19 de março de 2009

Dance lounge tecno pop rock jazz disco funk'n'roll?




O primeiro integrante fazia parte de um projeto de e-music chamado Every Single Soul, o segundo sempre gostou de jazz, e o terceiro gosta do que rola nas rádios hoje e o que rolou há 60 anos atrás. Léo Copetti, Léo Cavallini e Márcio “Japa” Yoshimoto resolveram se juntar no início de 2008 para ver no que dava essa geléia geral. E daí surge o Deletronica, banda que mistura o que acontece na música eletrônica, com pitadas jazzsísticas e ambientes New Rave.
Mas, além disso, há as canções, sim, as músicas não são só instrumentais.Léo Cavallini mostra pra quê veio nesse mundo. Com uma voz à la Tim Maia, o vocalista ainda se diferencia pelo sax barítono, que surge no meio dos loops de Léo Copetti. E ao fundo, vem a guitarra do Japa, que sem ela não teria muita graça.
“A banda surgiu com o intuito de renovar o antigo projeto ESS, então a Deletronica se originou a partir do fim ou do tempo que eu dei no ESS”, explica Copetti.
O convite partiu de Copetti, Léo Cavallini já o conhecia das antigas, e um dia resolveram se juntar. “A gente trocou uma idéia aí eu apareci na casa do Copetti, levei sax, flauta, trompete, e acabou rolando um som e veio disso (...) daí dei um toque no Japa pra ver se ele estava a fim de tocar, e ele começou a ensaiar com a gente”, relembra Cavallini.
Japa também recorda que o trio ficou “hibernado” na casa do Léo durante uma semana tirando as músicas. Sobre o gênero musical os três concordam que existe uma nuance de estilos, não dá pra definir que o som seja somente música eletrônica. “O Deletronica não é essencialmente música eletrônica, eu acho que é a mistura que fica legal, porque no final das contas a gente está fazendo canções”, argumenta Cavallini. Para Copetti seria um estilo eletrônico, mas não de pista, nas próprias palavras de seu fundador, seria “um dance lounge tecno pop rock jazz disco funk´n roll”.
Ares de outono, strangers on love, Cadê você, a dança, procession, murmúrios entre outras composições da banda vêm se encaixar nessa contemporaneidade que a mesma dissemina. A grande intervenção dessas novas bandas que estão surgindo na Capital, como Dimitri Pellz, Curimba, Haicais, Louva Dub, estas que não se preocupam em apenas reproduzir o que já existe, batem de frente com a questão comercial.
“É mais difícil porque o pessoal precisa de bandas covers, o pessoal não quer valorizar uma cena local, fica difícil então ter espaço. Rola fechar uma temporada, um dia, uma data ou outra, mas não dá pra se sustentar direito”, afirma Copetti.
Mas Japa concorda em partes dizendo que o Deletronica teve sim os seus momentos gloriosos, como a apresentação no Festival América do Sul, no ano passado e também comenta sobre a importância do próximo Som da Concha, que vai acontecer agora dia 22 de março, onde será a atração principal. “O Deletronica teve bastante oportunidades desde que se formou, no Festival América do Sul foi onde a gente fez o segundo show, tocamos no Lôla e agora estamos nos preparando para o show lá no Parque das Nações, que será bem bacana também”.
A banda está aguardando o resultado do FIC (Fundo de Investimento Cultural) que sairá no mês de abril, se for classificada a investida será na gravação do primeiro cd. Enquanto fica na expectativa , o trio continua divulgando suas músicas através do My Space ( www.myspace.com/deletronica) e procurando novos lugares para tocar.
Para quem não conhece, fica o convite, dia 22 de março, à partir das 17 horas, com a banda Mariachi abrindo, show do Deletronica no Som da Concha, no Parque das Nações Indígenas.

Fotos-crédito: Bolívar PORTO

sábado, 21 de fevereiro de 2009

novas formas de resistência às novas formas de manipulação


Polícia Federal invade Rádio Muda FM e apreende equipamentos


A Polícia Federal, em mais uma ação imoral, roubou todos os equipamentos da Rádio Livre Muda na madrugada do dia 19 de fevereiro na Unicamp-SP. Com ação abusiva doze policiais federais, 2 chaveiros e 1 delegado arrombaram a porta e levaram os equipamentos do patrimônio imaterial que há 18 anos proporciona comunicação livre para a cidade de campinas. Sem a presença da Anatel e o fato de terem levado os equipamentos, quando o recomendado é apenas lacrar, a ação pode também ser considerada ilegal. O próprio mandado assinado pela juíza Fernanda Soraia Pacheco Costa consta que a ação deveria ser feita juntamente com técnicos da Anatel. O processo é de 2006, o mandado foi assinado redigido no dia 21 de Junho de 2007 e certificado no dia 09 de Fevereiro de 2009.

São mais de 40 programas veiculados de domingo a domingo com programação diversa onde qualquer pessoa tem seu espaço para expressar seu pensamento através de músicas, textos, falas, poesia, zumbidos, silêncio e o que aparecer na programação. A rádio não tolera publicidade e se organiza com base nas discussões e atitudes dos indivíduos. Isso irrita os meios de comunicação hegemônicos que insistem em mentir sobre a falácia de que as rádios livres causam interferência na comunicação de aviões.

A reitoria da Unicamp manifestou apoio à Rádio Muda assim como inúmeras rádios livres e comunitárias de todo mundo. A Muda é referência na resistência contra o modelo de comunicação impregnado no Brasil onde apenas alguns grupos detém concessões públicas, muitos destes comandados por políticos como o Ministro das Comunicações Hélio Costa. Aliás, o atual governo não tem diferença nenhuma dos passados na política de comunicação, às vezes até pior.

Apesar da ignorância e falta de respeito a Muda deve continuar a manter vivo o movimento de Rádios Livres que vê neste acontecimento motivo para se fortalecer ainda mais e manter a comunicação livre por todo lugar. Procure-nos em uma freqüência da sua cidade.


http://muda.radiolivre.org/

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

“Feliz Natal” estréia na programação do 6° Festival de Cinema de Campo Grande


Caio, um homem na faixa dos 40, após ficar anos longe da família resolve voltar em pleno natal. Esse é o cenário do primeiro longa do novato diretor Selton Mello, intitulado “Feliz Natal”, que está participando da mostra competitiva do 6° Festival de Cinema de Campo Grande.
A volta do filho renegado lembra um pouco “Lavoura Arcaica”, filme de Luiz Fernando Carvalho, em que Selton vive o protagonista André. Baseado na obra de Raduan Nassar, “Lavoura Arcaica” traz uma atmosfera pesada e poética da convivência familiar.
E “Feliz Natal” não foge à regra, até parece ser uma continuação deste, André se transfere nas inconstâncias de Caio. O filme transmite a angústia de cada personagem, e a solidão que desespera cada um nos encontros de fim-de-ano.
Dirigido e escrito por Selton, o filme traz um elenco escolhido a dedo, nomes como Darlene Glória, Lúcio Mauro (que finalmente mostrou sua versão dramática), além de Leonardo Medeiros ,Graziella Moretto, Paulo Guarnieri e o menino Fabrício Reis , o longa relata as expectativas e desilusões que vão se entrelaçando na narrativa, sendo alteradas pela presença do protagonista.
Caio, interpretado por Leonardo Medeiros, decide voltar pra casa, encontra a mãe entorpecida de remédios e álcool, o pai que não consegue lhe perdoar, a cunhada que tenta segurar a barra, mas também passa por crises, o irmão bem-sucedido que lhe despreza, enfim, reencontra todas as nuances da sua família numa festa de natal.
Darlene Glória com seus olhos de ressaca interpreta a dissimulada Mércia, mãe de Caio, grande sacada de Selton, pois ele a conheceu durante as gravações de seu antigo programa no Canal Brasil “Tarja Preta”, se encantou tanto com a atriz que mesmo com o roteiro já finalizado resolveu incluí-la na trama.
Lúcio Mauro deixa a comédia de lado e surge como o pai rancoroso, o velho safado que tenta transparecer que se deu bem na vida. Já Paulo Guarnieri se apresenta como o irmão de Caio, Théo, aquela figura típica que existe em toda família, consegue sustentar a todos, mas não tem o controle da própria vida. Graziella Moretto também mais conhecida pelos os seus papéis cômicos, desenvolve de forma autêntica a cunhada Fabiana que tenta se esconder atrás do sorriso amarelo. Se a sua nudez no filme trouxe polêmica na classe artística, tendo até manifesto antinudez defendido pelo ator Pedro Cardoso, o que se presencia durante a cena não é uma nudez desmedida, com aspectos pornográficos, mas sim uma nudez que serve de parâmetro para todos os transtornos da própria personagem.
Selton que já vinha experimentando estar por trás das câmeras há algum tempo, produzia e dirigia “Tarja Preta”, também dirigiu um vídeoclip da banda IRA! conseguiu realizar um filme denso, angustiante, difícil de ser engolido. Levou para a casa três prêmios no Festival de Cinema de Paulínia , incluindo melhor direção , melhor atriz coadjuvante (Darlene Glória e Graziella Moretto) e Menção Especial (Fabrício Reis), faturou mais cinco prêmios no Festival de Cinema do Paraná e mais nove no FestCine de Goiânia.
Para quem não viu, fica a dica, até o dia 24 desse mês está em cartaz na programação do 6 ° Festival de Cinema de Campo Grande, no Cinecultura, que fica no Pátio Avenida.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Das antigas

Não me sinto mais só
Antônio preenche o medo
meu tormento de ser sozinha

Ainda perdida,
melhor desiludida
Amadurecida

Vou calar-me
exigir o que é impossível
Pra quê?

Violações, desrespeito
eis o casamento
Censura, omissão

Você máquina de escrever
será minha válvula de escape
sem entorpecentes

Lúcida, sigo
Nova, transposta
a uma vida
de meu ventre
nasce a salavação!

06/06/06

domingo, 4 de janeiro de 2009

Ausência


Quando a gente começa a ser adulto, os problemas saem do plano teórico e passam a se concretizar. Renato, pai do meu filho, veio visitá-lo. Ficou 6 dias e partiu o coração dele. Antônio sempre pergunta do pai, por mais que a figura paterna esteja inserida no meu próprio pai, ele ( Antônio) tem a necessidade de ter a presença desse pai ausente por perto. Mostro fotos, ligo, falo pelo MSN, tento manter esse vínculo. Dessa vez, o meu filho já conseguiu demonstrar toda a fragilidade que envolve o seu pequenino ser. O pai estava tentand0 explicar que tinha que partir. Ele chorava aos berros: - Papai, não me deixe, eu vou com você...não vou deixar você ir. Imaginem como fiquei. Aquela criaturinha já estava sofrendo as consequências do que fiz da minha vida, e já que ele veio do meu ventre, era a sua própria realidade que estava presenciando. Não tem nem 3 anos e sente a dor da partida, a saudade e a estranheza do pai não viver com ele. E alguns dias atrás ele se queixou que às vezes eu desapareço, muitas vezes quando tem um monte de gente na chácara, dou uma escapada e vou para a cidade, e volto no outro dia na hora do almoço. E fazia isso achando que ele não sentia a minha falta. Pois ele veio todo sentido falar que fica me procurando e não me acha. Como eu nunca tinha percebido que na verdade ele me vê como mãe mesmo?? Às vezes por não ser uma mãe padrão, percebo isso principalmente quando vou pegar Antônio na escolinha, todas as mães chegam bem vestidas, de salto alto, e elas tem cara de mãe, eu chego de moletom, chinelo e sem pentear o cabelo. Fico me questionando se a minha postura é encarada como a de uma mãe ou se na verdade ele me vê como uma irmã mais velha. E agora sei, que por mais que a aparência não me mostre como uma mãe, fazendo uma radiografia, que só ele pode fazer e sentir, sou eu a mãezinha dele. E à partir disso, desde a época que a minha barriga ficou enorme, eu já sabia que seria mãe, e a minha vida ter virado de ponta cabeça por causa disso, são nesses momentos que se levam marteladas na consciência. E são esses os problemas reais, os outros começam a se desfigurar, porque tentamos camuflar o que realmente interessa. E é ele o amor da minha vida. O coração dói de verdade quando o vejo chorar. Nunca tive amor maior que esse. E o resto não me interessa mais. Agora só quero aquilo que irá me fortalecer para seguir em frente.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Maria da Penha: uma reflexão sobre as relações sociais


Mais do que o grito das mulheres mortas, mutiladas e sufocadas pela violência, o exemplo da farmacêutica Maria da Penha, nordestina, cujo nome inspirou a Lei, deixa mensagem de reflexão sobre as relações sociais.
Em entrevista ao Midiamax, no restaurante do Novotel, em Campo Grande, Maria conta sua história de vida. Entre momentos de dor e alegria, ela deixa claro que já está na hora de crianças, profissionais, casais e amigos repensarem a forma de relação construída uns com os outros. Em que momento da emoção, o preconceito invade e torna pessoas tão próximas em adversárias, inimigos, vítimas e agressores?
Não há muros para o preconceito. Mulheres ricas, que tiveram a chance de sentar num banco de universidade e outras, semi-analfabetas, que mal sabem assinar o nome enfrentam a dor da violência psicológica e física.
Do outro lado, homens ricos, inteligentes, de boa posição, terno e gravata se vêem invadidos por raiva e revolta assim como aqueles mais humildes que chegam a casa e despejam todas sua amargura e dor na mulher, como se ela fosse um ser inferior.
Para Maria da Penha, o momento agora é de reflexão, de muita informação e de atitude, principalmente da rede de proteção que envolve os formadores de opinião, a polícia e todo o Judiciário. Leia a entrevista:
Midiamax – Como a senhora analisa essa violência que atinge as mulheres e que nada tem a ver com a condição social? Um exemplo foi o seu caso, uma pessoa que estudou, bioquímica e que foi vítima de um professor universitário.
Maria da Penha – Muitas vezes essa mulher não tem o apoio da família. Outras repensam: se eu me separar o padrão de vida dos meus filhos vai cair. Eles estão acostumados a viajar, ter academia. Elas gostam do padrão de vida.
(Pausa para conversar com a ex-coordenadora estadual de Políticas Públicas para a Mulher, Maria Rosana sobre a importância de uma capacitação aos policiais que atuam em delegacias)
Midiamax – Por que é importante capacitar esses profissionais?
Maria da Penha – É essencial. As mulheres precisam sentir-se acolhidas. Se na porta da delegacia ela não for bem acolhida, ela não acredita que pode ser ajudada.
Midiamax – Recentemente o Midiamax publicou o drama de uma jovem que apanhava do namorado e que teve que levar para delegacia a história dela para conseguir se livrar do relacionamento. Recebemos muitos e-mails de policiais dizendo que na contramão muitas mulheres vítimas de violência acabam por retirar as queixas e isso os deixa indignados.
Maria da Penha – Só quem entende o porquê que uma mulher retira a queixa é quem entende da violência. Depois da violência vem a fase da lua-de-mel, a reconciliação. A mulher acredita que não vai acontecer de novo.
Midiamax – Qual o obstáculo enfrentado depois que o caso vai parar na polícia?
Maria da Penha – No momento que o agressor já for punido, a mulher tende a querer se livrar daquele traste. E os juízes, imbuídos da cultura machista, tentam a reconciliação do casal. Na frente do juiz a mulher acaba por aceitar e se arrisca mais uma vez.
Midimax – A senhora acredita nos grupos de apoio e no tratamento para o agressor?
Maria da Penha – Vai servir para tratar o agressor para um novo relacionamento, mas não acredito em recuperação para aquela relação já com problema. Eu acho que o agressor repete o que aprendeu na infância se teve uma relação violenta quando criança. Mas, a Maria Rosana é que sabe dizer isso melhor para você. (aponta)
Midiamax – Como foi a sua vida? A senhora sofreu alguma violência quando criança? E como foram os anos de namoro com seu ex-marido que depois se tornou seu agressor?
Maria da Penha – A minha vivência é muito pessoal. Tive uma vida normal e na minha família não existiam brigas nem violência. Meu relacionamento com meu ex-marido foi maravilhoso. Ele era bem quisto, muito polido.
Midiamax – Quando ele começou a mudar?
Maria da Penha – Depois que ele conseguiu a naturalização (Ele era colombiano). Foi logo após o nascimento da nossa segunda filha. Tivemos três meninas. Eu fui usada porque para uma pessoa mudar do jeito que ele mudou só pode ser isso. Não sei como uma pessoa tão cativante muda de uma hora para outra.
Midiamax – Quais eram as atitudes dele? Isso afetou como sua vida sexual?
Maria da Penha – Passou a me culpar por tudo. Se a criança riscava assim (mostra com o dedo como se fosse um risco mínimo) a parede ele já me falava. Eu tinha que evitar que isso acontecesse. Vivia sob tensão porque não podia estimulá-lo. Não tinha como largar. Tentei me separar. Não conseguia ter mais relação sexual. Sofri agressão pesada depois do nascimento da nossa segunda filha e sempre eu tentava levar em consideração os momentos bons.
Midiamax – Com o tempo tudo isso foi acabando...
Maria da Penha – Eu não suportava mais a presença dele. Já conhecia o comportamento dele. Prevenia, procurava deixar tudo em ordem em casa. Minhas filhas eram pequenas, mas sempre sentiam proteção em mim. Hoje, as pessoas me falam: você conseguiu vencer porque suas filhas não foram prejudicadas.
Midiamax – Mesmo após o atentado que te deixou assim (cadeirante) as crianças tiveram contato com o pai?
Maria da Penha – Foi ele quem me tirou do hospital. Fiquei quatro meses internada e ainda fomos morar na mesma casa. Quando consegui me separar ele ia tentar visitar as meninas, mas eu e elas combinávamos de dar uma desculpa para ele dizíamos que tinha algum aniversário para irmos. Mas, eu dizia para elas se elas quisessem sair com o pai não tinha problema. Elas diziam que não. Meu medo maior era a gente se separar e ele fugir com minhas filhas para me prejudicar. Na minha família não existe violência.
Midiamax – Por que ele não aceitava a separação?
Maria da Penha – Embora o relacionamento não fosse bom para ele era. O meu salário era todo para dentro de casa. Eu sempre trabalhei e só ele não daria conta. Ele tinha outro relacionamento em outro estado porque ele viajava quinzenalmente para dar aula.
Midiamax – A senhora dividia sua dor com alguém? Como que houve de fato a separação?
Maria da Penha – Sim, dividia com amigas. Quando a bomba estourou e ele foi indiciado ele voltou para Natal, onde ele tinha um relacionamento. Não sei quanto tempo ele continuou. Durante o processo foi colocado que ele já tinha criado problema com outra família que ele tinha formado. Com certeza não fui a primeira nem a última.
Midiamax – A sua história deu nome à lei. Deve doer muito ter que falar disso tudo...
Maria da Penha – No Brasil não teve outra tão grave. Não gosto de falar. Talvez não falasse se não tivesse na posição que estou. A mulher não é a responsável pela violência doméstica. Mas pela cultura e lá no íntimo das pessoas há que ela fez alguma coisa para merecer isso e não é verdade.
Midimax – Quando foi o atentado e o que mais a senhora passou após isso?
Maria da Penha – Foi em 1983 e a primeira delegacia foi em 1985. A novela que passa hoje mostra uma mulher vítima de violência que reage e bate no marido. Isso é mentira jamais a mulher agredida tem coragem para agir assim. Quando eu me separei dele eu já estava paraplégica. Fiquei quatro meses hospitalizada e fui levada para casa por ele. Ele me tirou do hospital sem avisar minha família me mantendo em cárcere privado por 15 dias. Ele queria me matar. Um dia percebi o chuveiro dando choque e me apoiei no boxe e gritei pela empregada que já estava em alerta. Ai eu me lembrei que ele não tomava banho naquele banheiro e sim, no das crianças. Eu ia morrer eletrocutada.
Midiamax – Mas como ele atirou contra a senhora e não foi preso? E ainda, tirou-lhe do hospital e tentou lhe matar de novo?
Maria da Penha – Porque a versão dele à polícia é de que havia sido assaltado. Após atirar contra mim enquanto eu dormia, ele foi encontrado de pijama rasgado na cozinha com uma corda no pescoço.
Midiamax – Mas como a polícia depois descobriu a verdade?
Maria da Penha – Os vizinhos e as empregadas me ajudaram. Ele se contradisse sobre o pseudo-assalto e mudou a versão. Seis meses depois a polícia foi até a casa com a desculpa de arquivar o processo e ele foi pego de surpresa. Ai caiu em contradição porque já tinha esquecido a versão inicial.
Midiamax – Como era viver dentro da mesma casa com um homem que tentou te matar?
Maria da Penha – Ele me ignorava, era como se eu não existisse. Eu ainda estava aguardando a separação de corpos. A minha família não se aproximava de mim. A lavadeira de casa foi a casa da minha mãe e contou a ela o que estava acontecendo e minha família providenciou a separação. Mas toda a arrumação para sair de casa estava pronta sem ele saber. No cantinho do guarda-roupa estavam as roupas das crianças. Quando ele disse: segunda eu vou viajar, eu já me preparei. Ele deixou um vigia lá, mas foi ele sair e nós fomos embora com a ajuda da minha família. Depois de cinco meses após sair do hospital me livrei dele.
Maria da Penha agradeceu à entrevista e foi atender outra repórter. O deputado estadual Paulo Duarte (PT) a acompanhou e horas depois a levou para o seminário na Assembléia Legislativa, onde ela pôde falar da Lei de número 11.340 no auditório lotado, no dia 27 de novembro de 2008. Mulheres, homens, autoridades, funcionários da Casa de Leis reverenciaram Maria da Penha.

O Brasil demorou 20 anos para punir ao agressor de Maria da Penha, seu ex-marido , o colombiano naturalizado brasileiro Marco Antonio Heredia Viveros. Condenado a dois anos de prisão, cumpriu dois e foi posto em liberdade.

Ele foi preso apenas 19 anos e seis meses depois, em 2002. Em julho deste ano, passados 25 anos, o Estado brasileiro finalmente cumpre com a quase totalidade das recomendações da OEA (Organização dos Estados Americanos). Foi feito o pagamento da indenização de R$ 60 mil, pelo governo do Ceará que, na época, não puniu judicialmente o agressor. Com o dinheiro, ela quitou o financiamento de sua casa.
“Maria da Penha é um ícone da luta pela igualdade, foi privada do andar mas não da mobilidade e anda por todo o Brasil mostrando a triste verdade!”. (Trecho da homenagem de Odila Schwingel Lange/Dourados)

terça-feira, 4 de novembro de 2008


Desliguei o telefone. Ele estava na rua. Estava caminhando pela rua da Prefeitura, indo pegar um ônibus, iria lecionar música. Iria pegar a vanzinha azul, que eu tanto peguei, que caminharia pelas ruas campineiras. Eu, estava deitada de bruço na cama. Desliguei o telefone frustrada. Fui até a cozinha subi na cadeira para pegar uma caixa do armário. Tinha visto cigarrilhas numa caixinha de metal. Aqui em casa todo mundo fuma escondido: minha mãe, meu pai e eu. Procurei e não havia mais.Fiquei pensando em como as nossas vidas tomaram rumos diferentes. E isso deve acontecer com todo mundo. Eu como bolachas enquanto meu filho está na escolinha. Por mais que as responsabilidades tenham se exaltado em mim, continuo sendo cria dos meus pais. Meus cabelos brancos e a falta de cabelos do meu amigo nos mostra a evolução do tempo.Nossas histórias secretas, nossas risadas, nossa intimidade de poder falar tudo que passa na mente, nossas paixões gêmeas, nossa sensação de estarmos nos anos 60, eu era a Heloísa e ele o Galeno. E a minha vida me vem aos olhos da sua maneira energética, bem explorada, experimentada em todas as suas feições. Como soube aproveitar, e como era bom ter amigos. E que falta que eles me fazem sempre. O Antônio me preenche de uma maneira especial, é tudo diferente agora. Mas me falta os desabafos, os cigarros compartilhados, os comentários dos nossos filmes, a vontade de mudar o mundo, me dá saudade das minhas épocas de rádio muda, de pegar o ônibus e visualizar a cidade em cada entranha, dançar um blues, dar risada sem saber do quê, comer no restaurante vegetariano, olhar o mundo pela janela do meu apartamento, ir a pé no Cine Paradiso, comer moqueca na Tonha, beber no bar do zé, tomar cuba no delta blues, visitar o Platô, fazer rango às quatro da matina na casa do Cris, o sorriso da Di, as tardes no CDMC, a feira hippie, fazer chá doces sonhos, ir aos "concertos" de música eletroacústica, comprar maça na barraquinha da orozimbo maia, ir a catedral, nas reuniões do DACOM, ao bosque, as caronas, de tudo um pouco vou visualizando. São apenas as memórias que colorem a minha vida, dou meia risada. Dá pra ver?